terça-feira, 20 de maio de 2008

A ANDORINHA


Passado o inverno, as andorinhas costumam voltar para suas casas. Certa andorinha, especialmnete feliz com a chegada da primavera, reencontrou seu velho ninho e começou a arrumá-lo, limpá-lo, prepará-lo, enfim, para a próxima ninhada.


No momento devido, pôs os ovos, chocou-os e em breve estava cercada de filhotes. Como todos os pássaros, tinha agora que cuidar da sua ninhada, indo e voltando ao ninho, com alimentos.


Enquanto ela trabalhava incansavelmente, seu companheiro voava sem parar, mas nunca a auxiliava em nenhuma daquelas tarefas.


Assim é que, ao vê-lo voar incessantemente, noite e dia, sem repouso, alguém resolveu perguntar-lhe a razão de tanta inquietude. E a andorinha apenas respondeu:


- Ora, é que eu não gosto de trabalhar...

domingo, 18 de maio de 2008

A COTOVIA


A virtude ignora o mal e só tem amor pelas coisas dignas e nobres. Como um belo pássaro que escolhe para viver a árvore mais frondosa, assim o coração puro oferece abrigo apenas ao que é honrado.

Eis a seguir uma história que ilustra bem essas palavras.

Havia um ermitão que tinha por única companheira uma cotovia. E, por ser esse hmem um sábio, foi certa vez procurado pelos criados de um nobre, que se encontrava muito mal, já sem esperanças de continuar vivendo.

O eremita atendeu prontamente ao chamado, seguido de perto pela fiel cotovia.

No quarto do enfermo, o clima era de consternação: os quatro médicos ali presentes acabavam de concluir que nada mais restava fazer pelo pobre homem.

Porém, o velho, que acabara de chegar, parado à porta do aposento, observava atentamente sua cotovia, que pousara no peitoril da janela e tinha agora os olhos fixos no doente. Vendo isso, o ermitão finalmente rompeu o silênci, declarando:

- Ele não morrerá.

Espantadíssimos, os doutores não compreendiam como um homem simples como aquele ousava fazer tal prognóstico. Mas a verdade é que, logo em seguida, o enfermo sorriu para o eremita e começou a se recuperar a olhos vistos.

Uma vez curado, o nobre decidiu, passado algum tempo, fazer uma visita ao ermitão, para agradecer-lhe como devia.

Porem o velho não aceitou o agradecimento, dizendo:

- Quem o curou, meu senhor, não fui eu e sim a minha cotovia. Esse pássaro tem uma sensibilidade especial e, quando o colocamos próximo a um doente, ele nos indica quais são suas posssiblidades de vida. Se a cotovia olhar na direção do enfermo, este certamente irá sobreviver. Se, ao contrário, voltar-lhe a cabeça, ele morrerá. A verdade é que com seu olhar esta ave dá início à cura.

Como a cotovia, ou como a luz, que se torna tanto mais intensa quanto maior é a escuridão, também o Amor verdadeiro prefere manifestar-se nos momentos difíceis.


Leonardo Da Vinci

sábado, 17 de maio de 2008

O CISNE


A morte, para a maioria dos seres, chega com tristeza e dor. Para os cisnes, porém, é um momento de pura beleza e emoção.


Quando sentiu aproximar-se a sua hora, o cisne não precisou mais que se mirar nas águas tranqüilas do lago. Esse espelho lhe contava que sua plumagem continuava tão impecavelmente branca como sempre e que, com o passar do tempo, nada perdera da suave elegância. Se permanecia o mesmo, como explicar, então, o estranho frio e tremor que sentia, se não havia ainda chegado o inverno? Esse inexplicável cansaço é que lhe dava a certeza do fim.


Mais uma vez, o cisne deslizou para a sombra de um salgueiro, onde costumava abrigar-se nas horas de sol forte. Entretanto, era a hora do crepúsculo e as águas do lago iam passando da cor de sangue ao lilás.


A noite quase chegara quando o cisne começou a cantar. Jamais seu canto fora tão cheio de amor à vida e, ao mesmo tempo, de uma tão doce melancolia. Inicialmente claro e alto, o som de sua voz foi-se arrefecendo junto com a luz, até desaparecerem ambos por completo.


Todos os animais das redondezas conheciam aquele sinal:


- É o cisne que está morrendo, murmuraram de dentro da terra, das águas e das matas, cheios de agradecida emoção.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

AS GARÇAS


Apesar de ser um bom monarca, aquele rei - como, aliás, todos os poderosos - possuía incontáveis inimigos. Por sorte e em compensação tinha também súditos de uma lealdade a toda prova. Por exemplo, as garças. Sim, elas lhe eram tão fiéis que andavam preocupadas ante a possibilidade de algum ataque noturno ao castelo.

Quer dizer que aquelas frágeis aves pretendiam proteger Sua Majestade melhor que a própria guarda real?

- O problema é que as sentinelas dormem, quando deveriam estar alerta, confabulam as garças entre si.
- Também não podemos confiar nos cachorros, lembra uma outra, eles estão sempre cansados, já que vivem caçando...
- Portanto, nós é que temos que velar pelo sono de nosso rei, arremata uma terceira garça.

Corajosas, as aves dividiram-se em destacamentos, cada qual incumpido de vigiar um setor do palácio. Assim, enquanto um grupo se espalhou pelos campos em redor, outro postou-se nos portões principais e um último ficou de atalaia dentro dos próprios aposentos do rei. Decidiram, além disso, que se revezariam em turnos, para maior segurança.

Chegaria, porém, o momento em que até esses fiéis animais sentiriam sono. E quem se lembrou dessa possibilidade foi uma sábia garça que tratou logo de dividir suas preocupações com as companheiras. Depois de refletirem bastante, ocorreu à mais velha o seguinte estratagema:

- Enquanto ficarmos paradas, seguraremos uma pedra com o pé que estiver levantado. Se uma de nós adormecer, deixará a pedra cair e logo será despertada pelo barulho.

A precaução, embora cheia de sabedoria, parece ter sido desnecessária. Ainda hoje, as garças continuam em vigília por seu rei e dizem que até agora nunca se ouviu o ruído de uma pedra rolando pelo chão...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A LAGARTA por Leonardo Da Vinci

Triste o destino das lagartas: enquanto os demais insetos esvoaçam, saltitam, correm e até cantam ao seu redor, elas têm que se contentar com uma silenciosa imobilidade...

Mas aquela lagarta parada ali, sobre uma folha, não parece incomodar-se com tamanha injustiça da Natureza. Ao contrário, muito conformada com seu destino, ela inicia lenta e ondulante marcha até uma outra folha, aonde chegará tempos depois, cansada como se tivesse viajado quilômetros!

Parece saber também o ofício que lhe está destinado: tecer fios finíssimos e com eles construir, em torno do próprio corpo, um abrigo. Assim, a lagarta põe-se a trabalhar sem nenhuma pena de si mesma.

O tempo passa e eis que o casulo está pronto. Dentro dele, mais imobilidade e mais silêncio do que nunca em toda a sua demorada vida de lagarta. E ela pensa:

- Que irá acontecer agora?

A voz do institnto, então, segreda-lhe que deve apenas esperar e, coisa que não é muito difícil para uma lagarta, ter paciência. Entrega-se, pois, a um profundo sono sem sonhos.

Ao despertar, descobre que se transformara em outro inseto. Despe devagar o seu roupão de seda e, como se houvesse treinado a vida inteira para isso, sobre aos céus movendo com graça as asas leves e coloridas como delicados mosaicos.

Gratidão à Rosinha Campos e Diana Moura

Em encontro gerado pela altíssima voltagem da energia Diana Moura, com pessoas muito muito afinadas e queridas surgiu o assunto "atualização de blogs". Ela e Rosinha promoveram, com tanto afeto à esta casa amarela, uma alegria semelhante ao repouso de uma suave noite de verdadeiro sono em lençóis de linho e algodão puro: presenteou-nos com o livro: "A cotovia e outras fábulas de Leonardo Da Vinci". Para retribuir tamanho carinho, a partir de hoje, postarei aqui uma a uma. Depois do breve histórico de inspiradíssimo autor, presente na última página do livro da Editora Dimensão, de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Leonardo da Vinci, autor de fábulas? A maior parte dos leitores brasileiros estranhará a associação entre o artista e pensador italiano e o tipo de narração que, alegoricamente, encerra um ensinamento ético, político ou literário.

O Leonardo que conhecemos é, em primeiro lugar, o pintor renascentista, criador de obras-primas com oa Mona Lisa, a última Ceia, ou a Virgem dos Rochedos. As fábulas foram escritas por Esopo, Fedro ou La Fontaine, assim pensamos. Mas, na verdade, Leonardo, como homem do Renascimento, foi bem mais que um gênio da pintura e, entre outros escritos, assinou um grande número de fábulas.

Se seus quadros são imediatamente reconhecidos em nossa época, ou pelo menos os mais celebrados, é menos notória sua atividade como arquiteto e engenheiro militar. Pois o artista fiorentino também projetou a catedral de Milão e realizou estudos hidráulicos sobre os canais da cidade lombarda. De volta a Florença, desenvolveu estudos para o desvio do rio Arno e, mais tarde, em Roma, aprofundou pesquisas de óptica e matemática. A partir do vôo dos pássaros, determinou princípios para a construção de um aparelho mais pesado que o ar e capaz de voar, aproveitando a força dos ventos. Deixou esboços de um helicóptero e de um pára-quedas. E ainda tinha tempo para estudar anatomia e ser um músico que dominava a lira, instrumento de largo uso no seu tempo.

O oriente seria o berço da fábula, transposta para a Grécia, já antes de Esopo, autor do século V a.C. A fábula, para Taine, teria três momentos: uma fase de gênero sentencioso, movido pelo objetivo moral, correspondendo a Esopo; uma segunda fase, desenvolvida durante a Idade Média, quando se torna uma narrativa mais ingênua, a partir das inovações do latino Fedro, mostrando a posição do autor contra as revoltas e o crime; no século XVIII, firma-se como categoria poética, com La Fontaine, que a vê como uma pintura onde cada um de nós pode encontrar seu próprio retrato.

As fábulas de Leonardo, trazidas até nós pelo texto de Ângela Leite de Souza e pelas belas ilustrações de Rui de Oliveira, são anteriores às de La Fontaine e estariam próximas da tradição medieval. No entanto, não poderíamos chamá-las de ingênuas. Têm um componente bastante moderno ao não evidenciar tanto a moralidade. O caráter didático da fábula, que mesmo La Fontaine porá em relevo através de narrações jocosas, está mais velado em Leonardo da Vinci. Por meio de suas breves histórias, vemos sobretudo o humanista, observando a natureza e os animais darem ao homem a grande lição da vida.

Lino de Albergaria

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Uma flor

Conecto-me com minha doce e calma energia. E terna...